A maré está subindo — e nós também: Um artigo de opinião de Curuçá

O prefeito Hamilton Brito, de Curuçá, Pará, Brasil, compartilha reflexões da COP30 e emite seu apelo à ação para líderes globais e locais.

Thought Leadership
December 17, 2025
A costa amazônica e eu

Em novembro passado, os olhos do mundo se voltaram para o Pará, Brasil, quando os líderes globais se reuniram em Belém para a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). Para mim, o Pará é mais do que o estado anfitrião da COP30; é minha casa. É o coração da Amazônia, o coração da identidade, cultura e força de nosso povo.

Nasci e cresci em Curuçá, um município costeiro situado entre a floresta amazônica e longos manguezais, onde o ritmo do rio define o ritmo de nossas vidas. Curuçá foi onde construí meus sonhos e aprendi os valores da simplicidade, fé e trabalho árduo — valores que guiam minha vida e meu papel como prefeito hoje.

Lembro-me vividamente das tardes em Porto Grande, na minha comunidade de Nazaré do Tijoca, onde, quando criança, acompanhava meus pais e amigos pelos rios e manguezais para pescar e coletar caranguejos. Não se tratava apenas de sustento — era uma época de união, aprendizado e respeito pela natureza. Essas memórias alimentam minha profunda conexão com esta terra e impulsionam minha luta por sua preservação.

Para mim e meu povo, nossos manguezais, estuários e oceanos não são abstratos. Eles alimentam nossas famílias, moldam nossa cultura e impedem a subida das marés. Eles são a linha de frente da crise climática e onde eu aprendi o verdadeiro significado da resiliência.

Mayor Hamilton Brito of Curuçá, Brazil, speaking at the Local Leaders Forum in Río, ahead of COP30.
Os desafios que enfrentamos

Ao longo das décadas, observei nosso ambiente mudar significativamente. As marés e o clima não seguem mais os mesmos padrões, e certas espécies de peixes, caranguejos e camarões diminuíram notavelmente. A erosão corrói nosso litoral, enquanto a elevação do mar ameaça nossos manguezais e bacias hidrográficas.

Essas mudanças, por sua vez, ameaçam os meios de subsistência daqueles que dependem mais diretamente da natureza. Pescadores, coletores de caranguejos e marisqueiros lutam com menos capturas e precisam procurar formas alternativas de ganhar a vida. Os agricultores também devem se adaptar às mudanças das estações. Isso não afeta apenas nossa economia local, mas também as tradições de famílias que dependem desses ecossistemas costeiros há gerações.

E não estamos sozinhos. Em todo o Pará e em comunidades costeiras em todo o mundo, de Moçambique a Palau, famílias como as de Curuçá estão vivenciando realidades semelhantes. A mudança climática não é mais uma ameaça distante: está aqui, remodelando nossas costas, nossa cultura e nosso futuro.

Mas há esperança

No entanto, mesmo diante desses desafios, tenho esperança. Em Curuçá, temos jovens líderes, mulheres e associações de produtores locais preservando nossos ecossistemas costeiros por meio do cultivo de ostras, turismo sustentável e contribuições para o manejo eficaz dos manguezais locais, incluindo aqueles dentro de nossa reserva. Essas ações podem parecer pequenas em comparação com a escala da crise climática, mas são importantes. Cada mangue protegido, cada prática sustentável avançada e cada jovem engajado é um passo em direção à resiliência.

Também me sinto encorajado pelo que vejo além de nossas costas. Por meio da rede Coastal 500, conheci prefeitos e líderes locais de todo o mundo que enfrentam desafios semelhantes com coragem e criatividade. Na Conferência Oceânica das Nações Unidas e no Fórum de Líderes Locais da COP30, ouvi histórias de como aldeias costeiras na Indonésia, Filipinas e Honduras estão reagindo, protegendo os recifes de coral, restaurando a pesca e exigindo um assento na mesa dos fóruns globais. Saber que nossas lutas e soluções nos conectam é uma fonte contínua de inspiração.

Meu apelo à ação para líderes locais

Mais do que qualquer COP anterior, a COP30 foi moldada pelas comunidades da linha de frente que conhecem melhor esses desafios. Povos indígenas, comunidades locais, pescadores, agricultores, sociedade civil e governos locais fizeram suas vozes serem ouvidas, ajudando a transformar isso em uma COP Popular. Além das salas de negociação, a Coastal 500 e muitos parceiros promoveram uma Agenda Global de Ação Climática, inédita, demonstrando ao mundo o que já sabemos em lugares como Curuçá: as soluções estão aqui, as comunidades estão agindo e o progresso acelera quando trabalhamos juntos.

Mas mesmo com esse impulso, a COP30 ficou aquém dos compromissos que mais importam para o nosso futuro. Ainda não temos um caminho claro para abandonar os combustíveis fósseis, reverter o desmatamento e reconhecer totalmente o oceano como um componente chave na ação climática. Essas não são pequenas omissões e terão um impacto duradouro em nossas comunidades.

Enquanto os líderes mundiais refletem sobre seu tempo em Belém, peço que se lembrem de que a Amazônia é mais do que uma floresta tropical. São suas costas, rios, manguezais e os milhões de pessoas que a chamam de lar e cujo destino está profundamente entrelaçado com a região. Se falharmos em agir com urgência e justiça, comunidades como a minha pagarão o preço mais alto.

No entanto, não somos vítimas; somos os guardiões mais ferozes do nosso território. Os povos costeiros da Amazônia já estão se adaptando, restaurando, cultivando e defendendo sua casa. Apoiar e elevar nossa liderança é crucial para preservar a Amazônia em benefício de todo o mundo.

Agora que as negociações terminaram, o verdadeiro trabalho começa. Mostramos o que é possível. É hora de os líderes globais igualarem nossa determinação e transformarem a reflexão em ação, para que a maré crescente eleve não apenas nossas esperanças, mas nosso futuro.

A maré está subindo — e nós também

O litoral amazônico e eu

Neste último mês de novembro, os olhos do mundo se voltaram para o Pará, Brasil, enquanto líderes globais se reuniram em Belém para a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30). Para mim, o Pará é muito mais que o estado-sede da COP30. O Pará é meu lar. É o coração da Amazônia. É identidade, cultura e a força do nosso povo.

Nasci e cresci em Curuçá, um município costeiro situado entre a floresta amazônica e extensos manguezais, onde o ritmo do rio ditava o ritmo das nossas vidas. Curuçá é onde construí meus sonhos e aprendi os valores da simplicidade, fé e trabalho — que hoje guiam a minha vida e a minha gestão como prefeito.

Lembro muito das tardes no Porto Grande, na minha comunidade Nazaré do Tijoca, onde acompanhava meus pais e amigos pelos rios e manguezais e íamos pescar e colher caranguejo, além de outros frutos do mar. Era mais do que sustento. Era convivência, aprendizado e respeito pela natureza. Essas memórias alimentam, até hoje, minha conexão profunda com este território e motivam minha luta por sua preservação. Para mim e para o meu povo, nossos manguezais, estuários e oceanos não são algo abstrato. Eles alimentam nossas famílias, moldam nossa cultura e seguram as marés que insistem em subir. São a linha de frente da crise climática e o lugar onde aprendi o verdadeiro significado de resiliência.

O desafio que enfrentamos

Ao longo das décadas, observo nosso meio ambiente mudar significativamente. As marés e o clima já não seguem os mesmos padrões, e há uma diminuição perceptível em certas espécies de peixes, caranguejos e camarões. A erosão corrói nossa linha costeira, enquanto a elevação do nível do mar ameaça nossos manguezais e bacias hidrográficas.

Essas mudanças, por sua vez, ameaçam os meios de vida locais, pois pescadores, catadores de caranguejo e marisqueiras precisam lidar com a redução das capturas e buscar outras formas de sustento. Os agricultores também precisam se adaptar às mudanças das estações. Os mais vulneráveis entre nós — aqueles que dependem diretamente da natureza — são os mais afetados. Isso mexe não só com a economia local, mas também com a cultura e a tradição das famílias, que dependem do mangue e do rio há gerações.

E não estamos sozinhos. Em todo o Pará e em comunidades costeiras de todo o mundo, de Moçambique a Palau, famílias como as de Curuçá vivem realidades semelhantes. As mudanças climáticas deixaram de ser uma ameaça distante: elas estão aqui, redesenhando nossas costas, nossa cultura e o nosso futuro.

Mas há esperança

Mesmo diante desses desafios, estou esperançoso. Em Curuçá, temos jovens, mulheres e associações, como, por exemplo, a Associação Aquavila de Lauro Sodré, que estão conservando nossos ecossistemas costeiros por meio do cultivo de ostras, do turismo sustentável e da contribuição para o. Podem parecer ações pequenas diante da escala da crise climática, mas elas têm importância. Cada manguezal protegido, cada prática sustentável fortalecida e cada jovem engajado representam um passo em direção à resiliência.

Também me inspiro no que vejo além das nossas fronteiras. Por meio da rede Coastal 500, conheci prefeitos e líderes de todo o mundo que enfrentam desafios semelhantes com coragem e criatividade. Na Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos, no Fórum de Líderes Locais e na COP30, ouvi histórias de como vilas costeiras na Indonésia, nas Filipinas e em Honduras estão reagindo — protegendo recifes de corais, restaurando pescarias e exigindo um lugar à mesa dos fóruns globais. Saber que nossas lutas e soluções se conectam é uma fonte contínua de inspiração.

Mau chamado à ação para os líderes globais

Mais do que em qualquer COP anterior, a COP30 foi moldada pelas comunidades da linha de frente, que conhecem esses desafios melhor do que ninguém. Povos indígenas, comunidades locais, pescadores, agricultores, sociedade civil e governos locais fizeram suas vozes ecoar, ajudando a transformar esta COP na COP do Povo.

Fora das salas de negociação, a Coastal 500 e muitos parceiros avançaram em uma Agenda Global de Ação Climática inédita, demonstrando ao mundo o que já sabemos em lugares como Curuçá: as soluções estão aqui, as comunidades estão agindo e o progresso acelera quando trabalhamos juntos.

Mas, mesmo com esse avanço, a COP30 deixou lacunas importantes. Ainda não temos um caminho claro para a transição para longe dos combustíveis fósseis, para reverter o desmatamento e para reconhecer plenamente o oceano como componente fundamental da ação climática. Não são comissões pequenas — e elas terão impacto duradouro em nossas comunidades.

À medida que os líderes mundiais refletem sobre seu tempo em Belém, peço que se lembrem de que a Amazônia é mais do que sua floresta. Ela também é suas costas, rios, manguezais e estuários e os milhões de pessoas que aqui vivem e cujo destino está profundamente entrelaçado com esta região. Se falharmos em agir com urgência e justiça, comunidades como a minha pagarão o preço mais alto.

Ainda assim, não somos vítimas; somos os guardiões mais dedicados do nosso território. Os povos costeiros da Amazônia já estão se adaptando, restaurando, cultivando e defendendo seu lar. Apoiar e fortalecer nossa liderança é garantir a preservação da Amazônia para o mundo inteiro.

Agora que as negociações terminaram, começa o trabalho real. Já mostramos o que é possível. É hora de os líderes globais corresponderem à nossa determinação e transformarem reflexão em ação — para que a maré que sobe eleve não apenas nossas esperanças, mas o nosso futuro.

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